22 de dezembro de 2016

Crítica | Before we go

Sabe quando você está com muita vontade de comer alguma coisa mas não sabe o quê? Daí você abre a geladeira pra pensar e percebe que aquilo que você quer não está lá? Foi esse filme pra mim. Eu queria assistir o segundo Star Wars da franquia, mas naquele dia ficção científica não estava pra mim assim como bolinha de queijo não está pra vestido de festa.


Brooke (Alice Eve) é uma jovem que está correndo para tentar pegar o trem em direção à Boston, mas ela acaba se atrasando após ser assaltada. Sem dinheiro ou amigos, ela está perdida na noite de Nova York. Até que ela conhece, por acaso, o trompetista Nick (Chris Evans). A dupla começa a passear em torno da cidade e cresce um forte sentimento entre eles. Estreia de Chris Evans na direção. (Filmow)

Seguindo a linha do clássico de Linklater, Antes do Amanhecer (sério, você vai achar MUITAS semelhanças) Before we go é um drama romântico que foge do lugar-comum americano. No longa conhecemos um trompetista vivendo a sofrência do amor há muito tempo. Já Brooke é uma consultora de arte que viaja para Nova Iorque a trabalho e tem seu plano — voltar para casa antes de seu marido — frustrado. Os dois acabam se cruzando na estação de trem e partem para o resgate da bolsa furtada de Brooke. 

No início achei que eles não tinham muita coisa a ver e pensei que jamais shipparia o casal como Céline e Jesse, mas no desenrolar da trama e depois de conhecer mais a vida e a história das personagens descobri o que os atraiu: a fuga. Um procurava motivos para não reencontrar uma pessoa, outro estava acomodado com a situação mesmo sofrendo. Os dois se atraíram pela vontade de fugir do confronto. Os dois procuravam motivos para permanecerem inertes.

Por que é que qualquer decisão sempre parece muito pequena para ser a maior decisão de sua vida?
O longa me fez lembrar de um conto chamado As horas abertas, da escritora Marilene Felinto (que você pode ler aqui). Nele a personagem está prestes a encontrar com seu namorado e tudo indica o fim dessa relação. Num trecho ela diz que quando alguém diz que não te quer mais soa como língua estrangeira, ou seja, como ausência de compreensão, desamparo. Soa como estar fora do seu país, produz uma imagem de não-pertencimento. 

No longa, Brooke usa um termo em francês para designar exatamente a mesma coisa. A falta de chão no fim de um relacionamento que, mesmo ruim e acomodado, mostra-se como algo negativo. O termo em francês é também citado por Nick, que compartilha dessa mesma sensação de desamparo. As horas, que no conto são abertas, no longa são fechadas. Eles tem prazo de validade: uma noite.

Com o coração do tamanho de uma avelã cheguei até o fim do filme que, na verdade, não é exatamente um fim. Nós acompanhamos a jornada do casal naquela madruga e é só isso que nos é permitido ver. A noção de futuro existe, mas não achei nenhuma dica que indicasse o rumo dos dois. Por isso achei que o final foi coerente com a atmosfera e o enredo da trama, porque revelar o futuro quebraria a essência da narrativa.


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